De herdeiro de Tancredo e quase presidente a denunciado na Lava Jato: a história de Aécio

Dourados - MS, 4 de junho de 2017


Após delação da JBS, Aécio foi afastado do cargo de senador por determinação do STF

Um dia antes de o Senado aprovar o impeachment da então presidente Dilma Rousseff, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) subiu na tribuna do plenário para atacar sua principal adversária na campanha presidencial de 2014.

“Se apoderaram do Estado Nacional com a sensação da impunidade, de estarem acima da lei. Pois bem, o tempo passou e a resposta está aí”, disse no dia 30 de agosto, num discurso que durou 11 minutos.

Menos de um ano depois, as palavras proferidas pelo tucano parecem ter se voltado contra ele próprio. Aécio se vê hoje afastado do cargo por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF), teve prisão pedida pela Procuradoria-Geral da República e, nesta sexta-feira, foi denunciado por Rodrigo Janot sob a suspeita de corrupção passiva e obstrução de justiça.

Naquele que é o ponto baixo de sua vida pública até agora, é suspeito de tentar frear a operação Lava Jato, que veio à público em março de 2014 e, desde então, já transformou mais de uma centena de políticos em alvos de investigação.

Em depoimento de sua delação premiada homologada pelo STF, Joesley Batista, dono da JBS, disse que pagou R$ 2 milhões em propina ao senador tucano no começo deste ano. O dinheiro teria sido entregue a um primo de Aécio, Frederico Pacheco de Medeiros, preso no último dia 18.

A operação também deteve Andrea Neves, irmã do senador – ela também é suspeita de ter participado da negociação do que a PGR afirma ser propina.

A entrega do dinheiro foi registrada em vídeo pela Polícia Federal, que rastreou o caminho do dinheiro e descobriu que parte do montante foi depositado na conta de uma empresa do senador Zezé Perrella (PMDB-MG).

Aécio nega as acusações e afirma jamais ter recebido propina. Diz que pediu um empréstimo, ser vítima de calúnia e lamenta ter visto a irmã detida “sem que nada justificasse tamanha arbitrariedade”.

O nome do senador já havia sido citado em delações de empreiteiras, entre elas a Odebrecht, o que lhe fez virar alvo de inquéritos. Mas foram as acusações da JBS que o deixam agora sob o risco de virar réu – o que ocorrerá caso o ministro Marco Aurélio Mello, relator de seu caso no STF, aceite a denúncia apresentada por Janot.

Essa decisão não tem data para ocorrer.

Herança e futebol

Desde que a denúncia da JBS veio à público, Aécio tem sido chamado nos bastidores de “cadáver político”.

Aliados mais próximos, entre eles tucanos mineiros, classificam sob a condição de anonimato como “graves demais” as suspeitas que pesam contra o amigo e companheiro de partido.

Ainda assim, em Brasília poucos verbalizam a necessidade de uma punição para o senador. Apenas a Rede e PSOL defendem abertamente a cassação do mandato dele.

Ninguém arrisca dizer, contudo, se esse é o fim de uma carreira herdada do pai Aécio Cunha, que foi deputado federal e estadual, e dos dois avôs, Tancredo Neves, ex-governador de Minas e eleito presidente do Brasil (morreu antes da posse), e Tristão da Cunha, que passou pelo Congresso e participou do governo de Juscelino Kubitschek nos anos 1950.

Com tantos homens públicos na família, ele e as duas irmãs respiram política desde cedo. Tinham o costume de brincar com santinhos dos parentes confeccionados para eleições quando criança.

Aécio da Cunha Neves nasceu em 10 de março de 1960, em Belo Horizonte. Viveu na capital mineira até os 12 anos, quando a família se mudou para o Rio de Janeiro.

O jornalista Maurício Cannone foi colega de sala do tucano na oitava série, em meados dos anos 1970, num colégio que não existe mais no Leblon, bairro nobre da zona sul da cidades.

“Não era dos mais brilhantes, mas não era mau aluno. Se dava bem com todo mundo”, recorda Cannone, que costumava trombar com Aécio no Maracanã.

Cannone conta que o senador, torcedor declarado do Cruzeiro e do Botafogo, sempre foi fã de futebol. “O pai dele era diretor do Cruzeiro em Belo Horizonte, e me lembro dele contando que foi ao enterro do Roberto Batata, o ponta direita”, diz o jornalista.

Aécio não era bom de bola, mas, quando jogava futebol, usava uma camisa do zagueiro cruzeirense Darci Menezes. Naquela época, Política não era assunto recorrente.

“Era 1975, ditadura militar. Política não era estimulada. Eu nem sabia que ele era neto de Tancredo Neves”, lembra Cannone.

Aécio, o hoje jornalista e muitos outros alunos do Magdalena Campos foram continuar os estudos em outros colégios. Os dois nunca mais estiveram na mesma sala, e acabaram perdendo o contato.

“Uma vez encontrei ele na rua, olhei e ele não me reconheceu. Deixei pra lá”, conta.

De ajudante do avô a deputado federal

Aécio foi estudar economia na PUC-Rio, mas nunca foi militante estudantil. Além de futebol, gostava mesmo era de surfar, de corridas de motocross e de viajar. Morava num apartamento na badalada avenida Vieira Souto, na zona sul, e a praia de Ipanema era como a extensão de sua casa. Desde então, ganhou a fama de “bon vivant”, namorador e amante da noite carioca.

O jornalista mineiro Lucas Figueiredo conta em seu blog que, enquanto Aécio ainda pegava ondas e não demonstrava muito interesse pela política, a irmã dele, pouco mais de um ano mais velha, vivia o oposto.

Andrea militava pela esquerda e havia, por exemplo, ajudado a fundar o PT no Rio.

Mas foi Aécio, e não Andrea, quem Tancredo Neves escolheu para acompanhá-lo a partir de 1981. Ele foi chamado a conhecer sua terra natal como secretário particular do avô em Belo Horizonte. Transferiu-se para a PUC-Minas e, enquanto estudava economia, ajudava o então senador e, depois, governador.

Antes disso, quando tinha 19 anos, Aécio havia sido nomeado para trabalhar como secretário parlamentar no gabinete do pai na Câmara dos Deputados, em Brasília. Mas cuidava da agenda do pai do Rio mesmo, fato que causaria polêmica mais de 30 anos depois, na eleição de 2014 – ele negou qualquer irregularidade, dizendo que à época funcionários comissionados não eram obrigados a trabalhar na capital federal.

O jovem participou das campanhas vitoriosas de Tancredo a governador de Minas e a presidente do Brasil. De ajudante do avô, tornou-se militante das Diretas Já (1983-1984). Assumia a política como missão.

Com a morte de Tancredo, em 21 de abril de 1985, acabou nomeado por José Sarney, que na condição de vice assumiu o comando do país, como diretor de Loterias da Caixa Econômica Federal. Ficou no cargo um ano e saiu para disputar pela primeira vez uma eleição.

Em 1986, foi eleito deputado federal pelo PMDB. Depois migrou para um novo partido: o PSDB.

‘Pacote ético’

Aécio se elegeu deputado por quatro mandatos consecutivos e conquistou projeção nacional. Tornou-se líder do PSDB e, em 2001, conseguiu vencer a disputa pela Presidência da Câmara desafiando o PFL (atual DEM) – à época principal aliado do então presidente Fernando Henrique Cardoso.

À frente da Casa, emplacou o que chamou de “pacote ético”, com medidas como a criação do Conselho de Ética da Câmara – agora, diante das acusações que pesam contra ele, pode ser alvo do órgão homólogo no Senado.

Mas depois de 16 anos no Legislativo, ainda faltava no currículo um cargo no Executivo.

Em 1992, já filiado ao PSDB, Aécio havia disputado sem sucesso a Prefeitura de Belo Horizonte – terminou em terceiro lugar. Dez anos depois, porém, liquidou a disputa ainda no primeiro turno e foi eleito para um cargo ainda maior: o de governador de Minas Gerais. Contou com o apoio do então governador mineiro Itamar Franco, apesar das divergências do ex-presidente com FHC e o PSDB.

“Naquela eleição, ele já inventou o ‘Lulécio’. Apesar de o PSDB ter José Serra como candidato, em Minas ele não atacou Lula”, conta o deputado estadual de Minas, Rogério Correia (PT), um dos maiores opositores que Aécio encontrou no Estado.

Correia conta que já fazia oposição ao PSDB desde o início dos anos 1990. Durante o governo Aécio (2003-2010), fez denúncias contra Aécio e seu grupo. “Mas essa da JBS eu não sabia”, diz.

O deputado trouxe a público, por exemplo, denúncias de corrupção como o mensalão do PSDB, que teria usado agências de publicidade ligadas ao empresário Marcos Valério, que anos depois seria o operador do mensalão do PT, para superfaturar contratos e desviar recursos públicos em meados dos anos 1990 durante gestão do governador tucano Eduardo Azeredo.

Outro exemplo foi a chamada Lista de Furnas, que teria usado verba da estatal para pagar propina a tucanos, e repasses de publicidade a emissoras de rádio sob o comando da família Neves – o que Aécio sempre negou.

A maioria das denúncias, lembra o próprio Correia, não foi adiante. Acabaram arquivadas pelo Ministério Público. Ele diz ter “comido o pão que o diabo amassou” – acabou sendo alvo de uma investigação que ainda está sob análise da Promotoria mineira.

“Dentro da Assembleia tinha o rolo compressor do Aécio. Era muito difícil fazer oposição”, recorda Correia, para quem as vozes de oposição eram poucas e foram sendo sufocadas, em especial porque, no início, até mesmo o PT nacional tinha simpatia por Aécio.

O deputado diz ainda que, já no começo do primeiro mandato, o governador deu início a um processo de “blindagem” na mídia local e, em certa medida, junto ao Ministério Público estadual que, teria poupado Aécio de questionamentos mais duros, críticas e, principalmente, escândalos.

O tucano sempre negou ter tido a vida facilitada pela imprensa ou por autoridades.

‘Goebbels das Alterosas’

Segundo Correia, quem cuidava da imagem de Aécio na mídia era a irmã Andrea Neves.

“Nessa área de comunicação, ela mandava e desmandava. Apelidamos ela de Goebbels das Alterosas, comandava com punhos de aço”, diz o deputado, referindo-se a Paul Joseph Goebbels, ministro da Propaganda na Alemanha nazista entre 1933 e 1945.

Um dos primeiros a abordar a relação dos Neves com a imprensa foi Marcelo Baêta, à época um estudante de jornalismo da UFMG. Como trabalho de conclusão de curso, em 2006, ele fez um documentário chamado Liberdade, Essa Palavra para o qual gravou jornalistas narrando como teriam sido perseguidos ou demitidos por terem criticado a gestão do então governador.

“Logo depois de publicar o vídeo, no fim de agosto, o governo lançou o vídeo resposta, no início de setembro. Um vídeo um tanto quanto chulo e agressivo”, recorda o jornalista.

No material oficial, alguns dos entrevistados de Baêta mudaram a versão dada anteriormente.

“Creio que criou um certo ceticismo em relação ao meu vídeo, ou pelo menos confusão nas pessoas a respeito de qual era a real posição desses entrevistados. Ao que tudo indica, eles sofreram uma pressão forte e truculenta, ao estilo Andrea Neves, que agora está presa, mas na época era muito poderosa. Ao que parece, eles ficaram com medo e cederam.”

Para o jornalista, na mídia mineira “estava tudo dominado” e, na nacional, “o cenário era amplamente favorável” a Aécio, dada a pouca quantidade de notícias criticando ou questionando a gestão do tucano.

CPIs e bafômetro

Em 2010, Aécio deixou o governo mineiro com a popularidade nas alturas para concorrer a uma cadeira no Senado. Dois anos antes, havia conseguido a façanha de costurar um acordo com o PT para eleger o empresário Márcio Lacerda (PSB) prefeito de Belo Horizonte.

Levava no currículo como principal obra a construção da Cidade Administrativa, a nova sede do governo de Minas, vitrine agora sob suspeita com as delações da Odebrecht – os executivos da construtora afirmaram que a licitação foi fraudada, a obra superfaturada e que houve pagamento de propina.

Na disputa de 2010, Aécio foi eleito senador sem dificuldades, assim como fez seu sucessor em Minas, o aliado e ex-vice Antonio Augusto Anastasia (PSDB-MG), hoje também senador.

Foi Anastasia quem relatou o impeachment de Dilma no Senado.

No Senado, Aécio se colocou como principal nome da oposição e tentava se cacifar para disputar a eleição presidencial. Mas nunca foi titular ou suplente de nenhuma das 13 CPIs (Comissões Parlamentares de Inquérito) instauradas desde 2011, segundo informações disponibilizadas no site do Senado.

Dizia-se que ele atuava mais nos bastidores. Desde 2011, apresentou 39 projetos de lei e oito propostas de emenda à Constituição.

Fora da vida pública, acabou sendo alvo de notícias negativas. Em 2011, foi parado numa blitz da Lei Seca no Rio. Estava com a carteira de habilitação vencida e não soprou o bafômetro. Foi ainda filmado cambaleante, pedindo uma bebida num bar na mesma cidade.

Em 2014, nas vésperas da campanha, foi questionado diretamente se já havia sido usuário de cocaína. “Jamais, claro que não”, disse ao jornalista Fernando Barros e Silva, no programa Roda Viva, da TV Cultura, antes de atribuir o boato ao “submundo” da internet.

“Sou um homem do meu tempo. Nunca vesti o figurino de um político tradicional. Nunca deixei de ter minhas relações pessoais. (…) Não conseguem dizer que sou desonesto efetivamente. Não conseguem dizer que sou incompetente. De alguma forma, os ataques têm que vir. Se o ataque que tem é esse do submundo…”, emendou.

Alçado a candidato tucano à Presidência da República, viu o escrutínio aumentar – inclusive sobre sua gestão em Minas, encerrada anos antes.

Em julho de 2014, o jornal Folha de S.Paulo publicou reportagem afirmando que Aécio, quando governador, havia autorizado a construção de um aeroporto numa área que era de um tio em Cláudio (MG). Ele sempre negou qualquer irregularidade – disse que seu tio foi prejudicado com a desapropriação. No ano passado, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) concedeu homologação do aeródromo, que agora é público.

Nem bem, nem mal

Ao longo da vida, Aécio incorporou à sua imagem de homem público o gosto por festas com celebridades e empresários como Luciano Huck e Alexandre Accioly, além de passeios de moto e a cavalo.

O namoro de cinco anos com a modelo Letícia Werner virou o casamento e, às vésperas das eleições presidenciais de 2014, o casal anunciou que estava grávido de gêmeos. O pai da jovem Gabriela, de um relacionamento anterior, viu, aos 54 anos, nascer Julia e Bernardo.

Na disputa presidencial, chegou a ser desacreditado. Mas, quando amargava um terceiro lugar, conseguiu ultrapassar Marina Silva na reta final e ir para o segundo turno com Dilma Rousseff. Perdeu por pouco mais de 3 milhões de votos, numa das mais acirradas disputas desde a redemocratização.

Sua influência em Minas, porém, saiu arranhada. Em sua base eleitoral, foi derrotado por Dilma e não conseguiu levar ao segundo turno seu candidato a governador, o tucano Pimenta da Veiga. O PT ganhou a disputa ainda no primeiro turno com Fernando Pimentel.

Após a derrota nas ruas, partiu para o ataque. Presidido por ele, o PSDB foi ao Tribunal Superior Eleitoral tentar cassar a chapa Dilma-Temer, processo cujo julgamento está previsto para ser retomado na próxima terça-feira.

“Vamos fiscalizar, vamos acompanhar, vamos cobrar, vamos denunciar. Vamos combater sem tréguas a corrupção que se instalou no governo brasileiro”, disse em primeiro discurso pós-eleitoral no Senado.

Na votação que sepultou o governo Dilma no Senado, sublinhou as denúncias de corrupção que pesam contra o PT, provavelmente sem imaginar que, meses depois, ele próprio estaria afastado do cargo, acusado de irregularidades.

Nem mesmo amigos mais próximos têm saído em defesa do senador. Mas também não o atacam. “Em respeito, não falo nem bem nem mal”, diz um tucano mineiro, que conhece Aécio de longa data e pediu para não ter seu nome citado.

Contudo, não está abandonado. Parece estar ganhando tempo – tem recebido visitas em casa de políticos aliados e, até agora, apenas Rede e PSOL indicaram senadores para analisar o caso do tucano no Conselho de Ética do Senado.

Não disfarça, porém, o abatimento, principalmente por causa da irmã, cuja prisão, segundo a defesa, foi injusta e desnecessária.

Desde o dia em que subiu à tribuna para defender o impeachment de Dilma e atacar os que se beneficiam da sensação de impunidade, Aécio parece ter se transformado em um exemplo que comprova uma frase por vezes atribuída ao seu avô Tancredo e, outras vezes, ao ex-governador de Minas Magalhães Pinto:

“Política é como nuvem. Você olha e está de um jeito; você olha de novo e ela já mudou.”

Fonte: BBC Brasil

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