Ministro da Justiça tira ligação com ditadura do perfil

Dourados - MS, 5 de junho de 2017


Criado na burocracia estatal do regime militar, o ministro da Justiça, o carioca Torquato Lorena Jardim, 67 anos, limpou do currículo sua presença nos gabinetes da ditadura em Brasília. O perfil do ministro divulgado na tarde deste domingo no site da pasta só começa em 1979, quando ele iniciou a vida de advogado na capital federal.

A familiaridade de Jardim com o poder começou antes, num cargo de assessor de Jarbas Passarinho, ministro da Educação no governo do general Emílio Garrastazu Médici. Entre maio de 1972 e novembro de 1973, justamente no período de matança de guerrilheiros no Araguaia pelo Exército, Jardim trabalhava no Programa Nacional da Carta Escolar. É o que está registrado num currículo elaborado nos anos 1990 pelo próprio ministro, quando ocupava uma cadeira no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Os laços familiares mudaram o rumo do advogado formado pela Faculdade de Direito de Brasília em 1975 e que, em poucos anos, virou professor da Universidade de Brasília. Ele alavancou a carreira na sombra do sogro, João Leitão de Abreu, um influente ministro do Gabinete Civil de Médici que foi cotado para suceder o general na Presidência. No governo de Ernesto Geisel, Leitão de Abreu foi indicado para uma cadeira no Supremo Tribunal Federal (STF). Ele levou junto o genro, que ganhou o cargo de assessor, entre setembro de 1975 a agosto de 1978. Depois, com Leitão de Abreu no comando do TSE, Torquato Jardim foi nomeado secretário-geral da presidência do órgão, de maio de 1979 a agosto de 1980.

No ano seguinte, o general João Batista Figueiredo, último presidente do ciclo militar, chamou Leitão de Abreu para ocupar novamente o Gabinete Civil da Presidência. Leitão nomeou Torquato para ser o chefe de seu gabinete. Ali, o genro do ministro ficou até os últimos dias do governo Figueiredo e da ditadura. Com a redemocratização, Torquato fez carreira de ministro do TSE, de 1988 a 1996.

O perfil de Torquato Jardim divulgado pelo Ministério da Justiça também foi maquiado. Nas únicas citações dos serviços prestados pelo ministro ao governo no período militar, o texto destaca que ele foi advogado da Siderúrgica Brasileira, a Siderbrás, uma holding estatal ligada ao Ministério da Indústria e Comércio, em 1974. No currículo anterior, do TSE, Jardim informou ter sido “assessor” da Siderbrás. O mesmo ocorre em relação à sua passagem pela Comissão de Empresas Transnacionais das Nações Unidas, entre 1980 e 1981. Ele informa que foi advogado na comissão. Antes disse que tinha sido “delegado” do governo na missão.

Oligarquias. Se fosse para citar as origens familiares, Torquato Jardim precisaria de um currículo ainda mais volumoso. O pai dele, José Torquato Caiado Jardim, foi professor de escolas militares e ocupou cargos de assessor na ditadura apadrinhado por Mário Andreazza, ministro do Interior de Figueiredo. Já o trisavô paterno, o coronel José Rodrigues Jardim, o bisavô Rodrigues Jardim Filho e o avô Eugênio Jardim foram presidentes de Goiás, no Império e na República Velha. O ministro da Justiça também pertence ao ramo de outra oligarquia goiana. Ele é primo em segundo grau do senador Ronaldo Caiado (DEM-GO). Procurada para esclarecer a trajetória de Jardim na ditadura, a assessoria de imprensa da Justiça se limitou a enviar o perfil do ministro – do período democrático.

Fonte: Estadão

0 Comentários

Envie seu Comentário

Antes de escrever seu comentário, Atenção! O MSAtual não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!