Explosão de caixas-fortes vira novo filão para criminosos brasileiros

Polícia
Restos de um blindado na frente do edifício demolido da sede da Prosegur em Ciudad del Este

Ataques a cofres de empresas de transporte de valores se transformaram em uma das modalidades mais lucrativas para organizações criminosas brasileiras nos últimos dois anos. De 2015 a 2017, ocorreram no país 12 assaltos ou tentativas que resultaram em um prejuízo de pelo menos 184,4 milhões de reais. A migração para esse tipo de crime ocorreu após o endurecimento das polícias e das próprias empresas de segurança no monitoramento dos veículos (os carros fortes), que fazem o transporte do dinheiro entre bancos, lotéricas e suas bases – conhecidas também como caixas-fortes, que são os cofres onde o dinheiro é guardado.

A lógica, segundo policiais militares e federais ouvidos pela reportagem, foi o de buscar o dinheiro direto na fonte, ao invés de interceptar o veículo intermediário. Além disso, o que tem influenciado na decisão dos criminosos é a frágil fiscalização sobre o montante movimentado por algumas dessas empresas.

As invasões dessas bases costumam ocorrer de uma maneira extremamente violenta e organizada com táticas militares. Geralmente entre 30 e 50 criminosos equipados com fuzis e armamentos de uso restrito das forças de segurança rendem vigilantes, explodem paredes e cercam o entorno do local com atiradores para evitar a aproximação da polícia. Nos últimos casos registrados, apenas dois ocorreram à luz do dia, os demais aconteceram de noite ou de madrugada, quando a vigilância é reduzida. “Estamos diante de uma nova modalidade de crime que pouco se atentaram de sua gravidade”, afirmou um policial federal que atua no Paraná.

O alerta sobre a gravidade dos ataques, aliás, só ocorreu em abril deste ano, quando cerca de meia centena de atiradores explodiram a base da Prosegur em Ciudad del Este, na fronteira do Paraguai com o Brasil. Há indícios de que criminosos vinculados à facção Primeiro Comando da Capital teriam participado desse ataque. Na ocasião, as primeiras notícias era de que o equivalente a 120 milhões de reais teria sido levado do caixa-forte.

Dias depois, uma nova versão foi apresentada. O valor roubado teria sido de 40 milhões de reais. Policiais brasileiros que ajudaram a polícia paraguaia na investigação dizem que essa mudança na estimativa de valor aconteceu para não chamar ainda mais a atenção dos criminosos sobre o potencial de ‘lucro’ dessa atividade. Eles, porém, também admitem que a falta de investigação das empresas de transporte de valores estimularia essa caça ao tesouro nas bases de valores.

Essa debilidade na fiscalização, aliás, também foi notada pelos criminosos do colarinho branco. No mês passado, uma operação da Polícia Federal constatou que boa parte do que era pago de propina a Sergio Cabral (PMDB), ex-governador do Rio de Janeiro, era entregue por duas transportadoras de valores. Na ocasião, 12 pessoas acabaram presas. As estimativas iniciais mostram que, por esse meio, Cabral teria recebido 122 milhões de reais em propina – valor um pouco menor do que os 12 assaltos registrados em empresas de seis Estados brasileiros.

Procurada, a Associação Brasileira das Empresas de Transporte de Valores, que representa os principais alvos desses criminosos, disse por meio de um comunicado que nos últimos cinco anos foram investidos 400 milhões de reais em “tecnologia, infraestrutura e treinamento de equipe para tornar ainda mais eficiente a segurança de todos os seus processos”. Mas esses gastos por si só não garantem que esses ataques serão barrados ou reduzidos, já que deveria haver mais rigor no combate ao tráfico de armas e no transporte de explosivos. “Os ataques são praticados por quadrilhas especializadas, que atuam em âmbito interestadual, com equipamentos cujo combate está além da capacidade permitida às empresas para se protegerem”, queixam-se as empresas.

Entre as autoridades brasileiras, ainda não houve uma integração para se discutir o assunto. Uma análise feita pela Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef) ressaltou essa falta de integração policial e mostra que, enquanto as forças de segurança estão em descompasso, os criminosos estão bem articulados, utilizando um crime para financiar outros. Por exemplo, os ataques a série de explosões de caixas eletrônicos que antecederam aos ataques às bases serviram para financiar os assaltos dessas. Tudo acaba sendo retroalimentando com o tráfico de drogas e outros delitos.

No fim de 2016, o Governo Federal anunciou que investiria cerca de 450 milhões de reais no monitoramento das fronteiras. Os valores ainda serão gastos ao longo deste ano, segundo o que foi apresentado pelos ministérios da Defesa e da Justiça.

Fonte: El País

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