quinta-feira, Maio 24

Síria coloca credibilidade da ONU à prova

O Conselho de Segurança vota um cessar-fogo na Síria por unanimidade, mas nada muda. Pior ainda, o regime sírio, apoiado pela Rússia, acelera a recuperação territorial com ofensivas violentas. Qual seria o objetivo da ONU?

Para vários membros do Conselho de Segurança, especialistas e integrantes de ONGs questionados pela AFP, há a mesma constatação: impotência, ou inclusive, para alguns, perda de credibilidade da organização que deveria garantir a paz no mundo.

“Temos que fazer com que a tragédia síria não seja, também, o túmulo das Nações Unidas”: com esta frase chocante, o embaixador francês na ONU, François Delattre, quis despertar a consciência dos outros membros.

No entanto, sua preocupação com o futuro do organismo não parece ser compartilhada.

Para o embaixador adjunto britânico, Jonathan Allen, “o Conselho de Segurança falhou com o povo sírio” devido à oposição da Rússia. Mas a “Síria não significa o fim” deste organismo, declarou, acrescentando que sua ação continuará para salvar vidas e tentando impedir as atrocidades.

Apesar de sua insistência humanitária, apenas dois comboios das Nações Unidas foram autorizados por Damasco desde o início de 2018 a chegar às áreas sitiadas, disse na quarta-feira um funcionário da ONU.

Ele estava falando em uma reunião “urgente” do Conselho de Segurança, que não resultou em nenhuma iniciativa nova e forte para mudar a situação.

– Bombas sobre Damasco –

“Isso não é o que fazemos na ONU”, afirmou um diplomata sob condição de anonimato, lembrando que o consenso ou a divisão são decididos principalmente pelas capitais dos países-membros. “A mudança de jogo” na Síria “seria se Emmanuel Macron ou Donald Trump bombardeassem Damasco”, acrescenta.

A integrante do Instituto Internacional para a Paz (IPI), com sede em Nova York, Alexandra Novosseloff compartilha de uma ideia sobre o tema. Segundo ela, a ONU é somente “um instrumento nas mãos de seus Estados-membros” e “não apenas o Conselho de Segurança”, mas também um “sistema” completo e “agências de campo que tentam fornecer ajuda humanitária quando podem ter acesso às populações”.

Então, “temos que culpar os Estados-membros, alguns Estados, não a ONU em seu conjunto”.

Um ponto de vista que é apoiado por Richard Gowan, do Conselho Europeu de Relações Exteriores.

“É injusto culpar a ONU em seu conjunto pelo fracasso do Conselho de Segurança. Muitos funcionários da ONU, de fato, muitos diplomatas do Conselho, apelaram para sua determinação a fim de tentar acabar com a guerra”, sentenciou.

Desde o chamado a uma trégua, o Conselho de Segurança esteve realizando reuniões. Após as duas primeiras, ao menos quatro sessões adicionais sobre o tema estão programadas para março, incluindo uma na próxima segunda-feira com o secretário-geral da ONU, o português António Guterres, bastante discreto na crise síria.

“Se o Conselho de Segurança não se reunir e não nos esforçarmos para cumprir a resolução”, que exige um cessar fogo, “irão nos perguntar o que fazemos”, disse um diplomata. Essas reuniões estão destinadas a pressionar Moscou.

– Resto de credibilidade –

Desde o início da guerra, em 2011, “o Conselho de Segurança não tem muita credibilidade sobre a Síria”, resume Louis Charbonneau, da ONG Human Rights Watch. E também tem sua própria previsão: “se o Conselho não aplicar suas próprias resoluções (…), perderá o pouco de credibilidade que lhe resta”.

Para os Estados Unidos, a responsabilidade recai sobre a Rússia, que não exerce pressão suficiente sobre o seu aliado, o regime sírio, e “continua realizando ataques aéreos em Ghuta com sua própria aviação”.

“A Rússia rejeitou várias vezes a aprovação da resolução” sobre a trégua “e sua relutância em votar agora tem uma explicação: não tinha intenção de aplicá-la”, declarou à AFP um funcionário americano de alto escalão sob condição de anonimato.

Não foi possível obter comentários dos diplomatas russos. Nos últimos meses, Moscou tem se comprometido reiteradamente a deter os combates na Síria, dizendo a seus sócios que eles não podem impor todos os seus pontos de vista sobre Damasco.

“A realidade é que a Rússia usou o Conselho como um meio para complicar e frear os esforços de paz na Síria”, opinou Gowan, do Conselho Europeu. E “os Estados Unidos e seus aliados são, até certo ponto, cúmplices”, ressaltou.

Fonte: AFP

Obrigado pela sua participação!