quarta-feira, Abril 25

‘Faço doutorado e vivo de doação’: atraso em bolsas faz cientistas passarem necessidade

A pesquisadora Letícia precisa importar livros da França para terminar seu doutorado em psicologia, pois não existem traduções das obras para o português. Mas ela conta que nos últimos meses teve preocupações mais urgentes e básicas: como conseguir comida?

Já Angélica Samer, doutoranda em biologia, está evitando ir à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde estuda, para economizar R$ 16 da passagem de ônibus.

Elas estão entre os 7 mil bolsistas de iniciação científica e pós-graduação da Fapemig (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais). Recebem R$ 2,2 mil mensais para produzir suas pesquisas, mas os constantes atrasos de pagamento do auxílio estão criando dificuldades que elas não imaginavam passar nessa fase da vida acadêmica.

“Em fevereiro a fome bateu, cara. Passei fome, sim. Olhei o armário e não tinha carne, não tinha arroz, farinha”, conta Letícia, de 40 anos. A seu pedido, seu nome verdadeiro foi trocado nesta reportagem pois ela teme sofrer represálias.

A acadêmica começou a receber o auxílio da Fapemig em 2016, quando iniciou o doutorado em psicologia na UFMG. Ela e outros estudantes de universidades públicas de Minas contam histórias semelhantes: até meados de 2016, as bolsas de iniciação científica, mestrado e doutorado eram pagas em dia.

Então elas começaram a chegar poucos dias após o prazo – a data oficial de pagamento chegou a ser postergada para evitar atrasos. A partir de outubro do ano passado, a situação piorou: as bolsas passaram a atrasar por mais de um mês.

As de janeiro de 2018 só foram pagas em meados de março e os auxílios de fevereiro ainda não caíram. Após o contato da reportagem, na sexta-feira, a Fapemig afirmou que a verba começará a ser paga nos próximos dias.

Essas bolsas são do tipo “dedicação exclusiva”. Para consegui-la, o estudante assina um contrato se comprometendo a não ter outra atividade remunerada que não seja a pesquisa – ele deve dedicar 40 horas por semanas à academia.

Caso descumpra e consiga um trabalho, por exemplo, o bolsista perde automaticamente o benefício e pode ter de devolver toda a verba que recebeu, por meio de processo. Ele também precisa publicar artigos acadêmicos em revistas científicas e participar de congressos.

Letícia é um desses casos. Não pode trabalhar até terminar seu doutorado. O problema é que a bolsa tem atrasado cada vez mais – ela parou de comprar os livros de que precisa. “Sou uma pessoa pobre. Tenho de comprar comida, pagar aluguel, comprar os livros. Como vou fazer isso se a bolsa não é paga?”, diz ela, que se mudou para Belo Horizonte para trilhar carreira acadêmica.

Sem o pagamento, as contas se acumularam e o cheque especial passou a cobrar os juros.

Em fevereiro, quando viu seu armário vazio e a conta bancária negativa, ela pediu ajuda a colegas. Pesquisadores de outras universidades arrecadaram dinheiro e alimentos para ajudá-la . “A Fapemig diz que você não pode trabalhar, que precisa se dedicar, escrever artigos. Mas não te paga a bolsa. Eles são muito rígidos em tudo, menos em pagar o nosso dinheiro”, conta.

‘Tinha o sonho de ser cientista’

Também doutoranda na UFMG, a bióloga Angélica Samer, de 26 anos, estuda a incidência de dengue e zika em Minas Gerais, mas não consegue ir à universidade por falta de dinheiro – também desistiu das aulas de inglês e do plano de saúde. Os constantes atrasos da bolsa desanimaram a estudante.

“Sempre tive o sonho de ser uma cientista: fiz graduação, mestrado e, agora, doutorado. Mas o que faço agora? Estou perdida. Me sinto qualificada para trabalhar, mas não posso por causa da bolsa”, diz.

Ela cita o cientista britânico Stephen Hawking, que morreu na semana passada. “As pessoas ficaram comovidas com a morte dele. Infelizmente, elas não sabem das dificuldades que os pesquisadores brasileiros passam para produzir ciência.”

Renata (nome fictício), doutoranda em agronomia na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), tem sentimento parecido. “Não desisto porque quero muito terminar, mas me sinto completamente desestimulada. Eu poderia ganhar muito mais atuando no mercado”, diz ela.

A agrônoma conta que, durante sua pesquisa de campo, acabou sem dinheiro para coletar o material que precisava para finalizar seu estudo. Ela também evita se deslocar à universidade, a 23 km de sua casa. “É humilhante você estar no doutorado e ter de pedir dinheiro a sua mãe para comprar produtos básicos de higiene”, conta Renata, de 30 anos. Ela tem uma filha de um ano e quatro meses.

Estudante de geografia, Gustavo também tem dificuldades para se manter no campus da UFU em Ituiutaba, no interior de Minas, cidade para onde ele se mudou por causa da graduação. Ele recebe uma bolsa de R$ 400 para realizar uma pesquisa de iniciação científica – usa parte do dinheiro para pagar o aluguel.

“Sonho em fazer mestrado e doutorado, mas já na graduação enfrento essas dificuldades. É muito frustrante. Quando eu me formar, talvez eu vá trabalhar no mercado”, diz.

Crise financeira

A Fapemig é mantida pelo Estado de Minas Gerais, hoje governado pelo petista Fernando Pimentel. A fundação foi criada há 32 anos para apoiar “projetos de natureza científica, tecnológica e de inovação considerados estratégicos para o desenvolvimento do Estado”, diz a descrição em seu site.

Segundo a fundação, as bolsas de iniciação científica, mestrado e doutorado custaram R$ 58,6 milhões aos cofres públicos em 2017, apesar dos atrasos. O orçamento total do órgão foi de R$ 295 milhões.

A instituição diz que sua verba é passada pelo governo estadual, que “está em crise financeira.”

“A Fapemig tem como prioridade manter em dia o pagamento das bolsas concedidas pela Fundação. A direção da Fapemig tem efetuado diversas ações junto ao tesouro estadual, fonte dos recursos para pagamento das bolsas, a fim de assegurar esse pagamento”, afirmou a instituição, em nota.

Membro Associação Nacional de Pós-Graduandos, Laís Moreira faz uma crítica à forma como os governos estaduais e federal tratam a produção científica no Brasil. Ela aponta, por exemplo, o fato de o presidente Michel Temer (PMDB) ter fundido o antigo Ministério da Ciência e Tecnologia com o de Comunicações, em 2016, e, no ano seguinte, anunciado um corte de verbas na pasta.

“A desvalorização da pós-graduação ocorre no Brasil inteiro. Nossa luta não é corporativista, a bolsa não é um salário. Não existe saída para a crise por meio de desenvolvimento econômico e inovação sem passar pela pós-graduação “, diz Laís.

Fonte: BBC Brasil

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