quarta-feira, Abril 25

Criminosos atacam prédios públicos no Ceará; 70 veículos são incendiados

Ações violentas podem ser reação a bloqueadores de celular

Pelo segundo dia seguido, prédios públicos do Ceará foram alvos de ataques criminosos, que deixaram, ainda, ao menos 70 veículos queimados, incluindo dez ônibus. As ações ocorreram em Fortaleza e na Região Metropolitana do estado, durante a madrugada deste domingo. Seis pessoas foram presas por suspeita de envolvimento nos atos.

Em reação aos ataques, o governador Camilo Santana (PT) convocou, neste domingo, uma reunião com a cúpula da Segurança e da Justiça de sua administração para avaliar medidas. Segundo especialistas em segurança pública, as ações podem representar uma reação de criminosos a uma determinação judicial que obriga o estado a instalar bloqueadores de sinal de celular nos presídios do Ceará.

Três prédios da capital cearense foram atacados durante a madrugada: a Secretaria Executiva Regional IV, o 18º Juizado Especial e a Empresa de Transporte Urbano de Fortaleza (Etufor). No município de Cascavel, a 60 quilômetros da capital, criminosos incendiaram cerca de dez carros e 50 motocicletas no pátio da Secretaria estadual de Infraestrutura (Seifra). Em Sobral, no interior do estado, indivíduos arremessaram coquetéis molotov contra o prédio da Coordenadoria Integrada de Operações de Segurança (Ciops), mas o artefato não chegou a incendiar.

REUNIÃO DE EMERGÊNCIA

Os ataques em Fortaleza deixaram, ainda, dez ônibus incendiados e duas antenas de telefonia móvel danificadas. Após a sequência de crimes, a Etufor decidiu que os veículos vão circular em comboios com acompanhamento de policiais militares e guardas municipais.

Na madrugada de sábado, criminosos já haviam atirado contra o prédio da Secretaria de Justiça do Ceará. Três pessoas morreram em confronto com a Polícia Militar.

— Esses atos criminosos têm ocorrido por interesses contrariados desses bandidos, que buscam afrontar o Estado e amedrontar a população — disse Camilo Santana.

Durante a tarde deste domingo, após reunião com integrantes de sua administração, o governador prometeu reforço no policiamento e nos trabalhos de inteligência.

— Desde 2016, venho cobrando insistentemente o envolvimento do governo federal, que agora abriu os olhos para o problema — afirmou Santana.

No início do mês, o ministro da Segurança, Raul Jungmann, anunciou a criação do Centro Regional de Inteligência, formalizando a participação de órgãos federais no combate ao crime organizado. O projeto ainda não foi implementado.

A polícia do Ceará prendeu seis pessoas por envolvimento na sequência de ataques criminosos de sábado e domingo. Igor Victor da Silva Fernandes, Daniel Vanderlei de Freitas Costa e Antônio Elton Lopes Cassiano foram presos no Centro de Fortaleza, próximo a locais onde foram registrados ataques. Eles carregavamgalões de gasolina. Luís Daniel Oliveira Beserra e José Venício da Costa Andrade também foram capturados com material inflamável. Já Bruno da Silva Triunfo foi preso portando uma pistola calibre .380. Ele é suspeito de atacar a Etufor.

BLOQUEADORES DE CELULAR

A secretaria de Segurança Pública do Ceará não informou a linha de investigação dos crimes. Para o sociólogo Leonardo Sá, integrante do Laboratório de Estudos da Violência (LEV), os ataques podem ter sido motivados pela decisão judicial que obriga a instalação de bloqueadores de celular no sistema penitenciário do estado. Decisão do juiz Francisco Eduardo Torquato Scorsafava no último dia 2 determina “a devida instalação de bloqueadores de sinal de celular em todas as unidades prisionais sob sua responsabilidade” no prazo de 180 dias.

— O que significa o celular para uma facção criminosa? Comunicação com a rua, com os aliados, controle dos negócios. A maior parte dos negócios ilícitos é controlada por celular. Então, sim, isso seria um motivo plausível para o ataque a secretaria de Justiça. Como “soldados” deles foram mortos na ação, isso desencadearia as represálias — argumenta o sociólogo.

No último dia 12, o governador citou a decisão da Justiça ao comentar a chacina que deixou sete mortos no bairro Benfica, no dia 9.

— Ninguém mais do que eu quer implementar os bloqueadores de celular no estado. Sofremos ameaças: a Assembleia, o governo do Estado. Mas ninguém mais do que eu tem defendido isso, aliás, não só no Ceará, no Brasil inteiro. Porque o crime ultrapassou as fronteiras — disse Santana na ocasião.

Leonardo Sá avalia que os ataques contra prédios do Estado podem ser intensificados. Ele acredita que diferentes facções criminosas possam estabelecer uma “trégua temporária” entre si.

Fonte: O Globo

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