Expor uma mulher que está na condição de vítima já é algo corriqueiro na imprensa e em posts de machistas nas redes sociais. E, quando ela é também lésbica (ou quando é um homem trans), pelo jeito, fica mais fácil agir com desrespeito. No texto da Folha, Juliane, Juh ou Dudu (as maneiras como se apresentava, segundo relatos de amigos publicados pela mídia) é reduzida a uma lésbica, pegadora, que se arrisca e canta de galo no bar da favela. É uma versão da frase “mas, também…”, usada sem pudor para culpar mulheres vítimas de violência.

Nas entrelinhas, o título do texto diz “olha como era promíscua!”. Uma característica geralmente associada aos gays, às lésbicas, aos bissexuais, às travestis e aos transexuais. Basta ver os comentários relacionados à postagem do jornal para ver que a intenção, se foi essa, foi bem-sucedida. Se não foi, é consequência de uma postura irresponsável.

No caso da PM, repete-se a lógica de matar pela segunda vez, mas agora de forma simbólica. Criminosos torturaram e mataram Juliane (ou Dudu). Atiraram em seu corpo. A Folha invadiu a sua intimidade sem que isso tivesse qualquer relevância jornalística. Atirou na sua honra, ferindo a imagem de quem nem pode mais falar por si.

O assassinato da PM é – ou deveria ser – uma notícia para levantar discussões sobre mortes de policiais militares (que, ao contrário do que tentam dizer, é uma pauta fundamental para a defesa de direitos humanos), sobre violência contra LGBTs e pessoas negras. Não sobre sua intimidade.