seg. nov 18th, 2019

Acabou o amor entre o bolsonarismo e o lavajatismo

Foi um casamento curto, mas proveitoso para ambos. E agora vivem um processo de separação litigiosa

Em 1992, um grupo do Poder Judiciário na Itália comandou a famosa Mãos Limpas. Procuradores e juízes foram transformados em celebridades. E a investigação teve um efeito colateral, a eleição de Silvio Berlusconi na esteira do sentimento da antipolítica. No Brasil, algumas décadas depois, uma operação judicial justificada pelo legítimo combate à corrupção transformou-se num grupo de poder. A Lava Jato desestruturou o cenário político, eleitoral e até econômico construído no último período. Perseguiu inimigos e interferiu diretamente nas eleições de 2018, levando à vitória de Jair Bolsonaro.

A maior figura pública do lavajatismo sempre foi Sérgio Moro, um juiz caipira alçado à condição de “super-herói” por parcela significativa da mídia. Como era evidente e as inúmeras revelações da Vaza Jato vieram a comprovar, Moro atuou para favorecer o impeachment de Dilma Rousseff e conduziu sem qualquer isenção o processo no qual condenou e prendeu Lula, tirando o candidato favorito das eleições presidenciais.

Recebeu como recompensa de Bolsonaro o cargo de ministro da Justiça. O Brasil parecia assistir à “cena do beijo” deste insólito casamento político. Bolsonarismo e lavajatismo, ainda que com origens e razões de existir distintas, anunciavam-se como um projeto político unificado de condução do País. Iriam acabar com a corrupção e salvar a população dos comunistas.

Mas a história não acaba como o fim de uma novela. Curiosamente, poucos dias após o segundo turno das eleições, vieram as revelações sobre Queiroz. Os funcionários fantasmas e os depósitos para o filho Flávio e para a mulher Michelle mostraram apenas a ponta do iceberg do tipo de política que Bolsonaro e a família sempre representaram.

O presidente precisou traçar uma estratégia para sobreviver às investigações e proteger os seus. Ainda em janeiro, o ministro do STF Luiz Fux concedeu uma liminar que suspendia a investigação sobre Flávio Bolsonaro. Com a liminar cassada, José Dias Toffoli decidiu em julho suspender todos os processos judiciais com dados compartilhados por órgãos financeiros, incluindo aqueles da investigação de Queiroz.

Mais  Comissão aprova direito de resposta para postagens em redes sociais

Em seguida, Bolsonaro passou a atacar a atuação da Polícia Federal. Por conta de uma fiscalização em área de milícias no Rio de Janeiro, grupo de criminosos que insiste em aparecer no entorno do presidente, trocou o superintendente da PF no estado.

FOTO: CAROLINA ANTUNES/PR

Mais recentemente, ameaçou repetidas vezes exonerar o diretor-geral da polícia, Maurício Valeixo, ligado a Sérgio Moro. “Quem manda sou eu”, foi sua resposta quando perguntado sobre a opinião de Moro em relação à PF. Bolsonaro também ignorou o ministro da Justiça e a lista elaborada pela associação dos procuradores ao nomear Augusto Aras para a Procuradoria-Geral da República. Mais uma clara tentativa de fugir das investigações, transformando Aras em um novo “Engavetador-Geral da República”, ao modo do que foi Geraldo Brindeiro para Fernando Henrique Cardoso.

A cada passo de Bolsonaro, o beijo do casamento parece mais distante. Acabou o amor. Mesmo humilhado dia após dia, Moro segue no cargo. Mas com cada vez menos tinta na caneta e com a reputação manchada pelas revelações da Vaza Jato. A briga era previsível, pelo potencial enfrentamento de ambos em 2022, mas Bolsonaro decidiu antecipá-la quando viu a fragilidade de Moro e pelo desespero em salvar o filho e os negócios da família.

Não nos iludamos, porém, em relação ao que está em jogo. De um lado, uma seita política alimentada pelo ódio, incapaz de formular qualquer proposta coerente para o Brasil e comandada por uma família enfiada até o pescoço em relações espúrias e corruptas com milicianos. Do outro, um grupo de justiceiros que usaram o combate à corrupção como pretexto para acumular poder, dinheiro e atuar politicamente. Duas propostas antinacionais que passam longe de um projeto de País que envolva o enfrentamento à desigualdade e a garantia de direitos sociais e democráticos.

Mais  Câmara do Chile aprova convocação de plebiscito para nova Constituição

No divórcio cada vez mais iminente entre o bolsonarismo e o lavajatismo não há heróis. São duas facções políticas, faces da mesma moeda, lutando pela autopreservação e por mais poder. Ambas fazem mal ao Brasil.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.