sáb. fev 23rd, 2019

Crise na Argentina: o ano em que tudo o que podia dar errado na economia, deu errado

O ano que termina tinha que ser relativamente aprazível. Tanto o Governo argentino como os analistas financeiros projetaram, no final de 2017, um horizonte calmo: crescimento econômico de mais de 2%, inflação controlada abaixo de 15% e dólar estável, em torno de 20 pesos. A realidade foi muito diferente. Depois de um annus horribilisem que a Argentina teve de pedir ajuda, por duas vezes, ao Fundo Monetário Internacional, o país sofre hoje uma severa recessão (o Produto Interno Bruto se contraiu pelo menos 2%), a inflação está em torno de 47% e um dólar custa 39 pesos. Tudo o que poderia dar errado, deu errado.

O que aconteceu? Os analistas, muito mais precisos quando preveem o passado do que o futuro, falam de quatro fatores fundamentais: o aumento das taxas de juros nos Estados Unidos, a fragilidade estrutural da economia argentina, a pior seca em quase meio século e alguns erros do Governo de Mauricio Macri. Os três primeiros já despontavam em dezembro de 2017. O quarto, em certa medida, também. O reformismo gradual de Macri há muito mostrava seus limites: para evitar uma crise social, havia escalonado a eliminação de subsídios e, em 2017, relaxou, de 12% para 15%, a meta de inflação.

O Federal Reserve, dos EUA, anunciou a intenção de aumentar as taxas pouco a pouco para evitar o risco de superaquecimento e acabar com a era do dinheiro quase gratuito, estabelecida a partir de 2008 com a finalidade de aliviar os efeitos da Grande Recessão e favorecer o retorno do crescimento. Em 14 de dezembro de 2017, elevou os juros básicos de 1% para 1,25%. Em 22 de março de 2018, para 1,50%. Agora, estão em 2,25%. Isso significa que os investidores podem receber cerca de 3% pelo dinheiro que depositam na dívida dos EUA.

Mais  Lei Rouanet: para além dos memes

Enquanto as taxas subiam em Washington, as outras moedas americanas (e, em geral, as de todas as economias emergentes, da turca à indiana) se enfraqueceram: o capital preferiu a segurança e a lucratividade do dólar. O peso começou a cair. Durante os primeiros quatro meses de 2018, com alarmes em vermelho, a Casa Rosada e o Banco Central tomaram medidas emergenciais: aumentaram as taxas para 40% e venderam mais de 8 bilhões de dólares (cerca de 31 bilhões de reais) das reservas nacionais para tentar escorar a moeda. Sem sucesso.

As debilidades estruturais (déficit fiscal de quase 10% do PIB, déficit em conta corrente próximo a 5% e uma dívida em moeda estrangeira, basicamente o dólar, de 40% do PIB) foram acompanhadas por uma seca devastadora, fenômeno muito prejudicial para um país parcialmente dependente das exportações agrícolas. Em fevereiro, a Bolsa de Valores de Rosário estimou que cairiam tanto a produção de soja (de 60 milhões de toneladas na safra anterior para 47 milhões de toneladas) como a produção de milho (de 39 para 35 milhões de toneladas). Isso significaria uma perda de renda em dólares próxima a 4 bilhões (cerca de 16 bilhões de reais).

A mão do FMI

Nesse contexto, o Governo anunciou que, a partir do final de abril, seria aplicado um imposto sobre os lucros dos detentores de Lebacs (Letras do Banco Central), o que precipitou a fuga de investidores. Em 3 de maio, o peso se desvalorizou mais de 7% em relação ao dólar. A Argentina carecia de liquidez. E a contínua desvalorização da moeda fomentou a inflação. Em 8 de maio, o presidente Macri anunciou que estava negociando com o Fundo Monetário um empréstimo de 50 bilhões de dólares (195 bilhões de reais), o maior concedido a um único país pela organização internacional. Em troca, a Argentina se comprometia com um duro ajuste fiscal que implicava uma recessão mais ou menos severa.

Mais  Cultura da fartura impulsiona desperdício de alimentos no Brasil

Em junho, Federico Sturzenegger deixou a presidência do Banco Central e foi substituído por Luis Caputo, até então ministro da Fazenda. A gestão da economia ficou em mãos de Nicolás Dujovne. A tendência, no entanto, não mudou. A desvalorização e a inflação continuaram a toda velocidade. Em 29 de agosto, Macri anunciou uma renegociação com o FMI para aumentar o montante do crédito (até 57 bilhões de dólares) e antecipar os desembolsos. Em setembro, uma comissão do Fundo chegou a Buenos Aires e, dias depois, Luis Caputorenunciou ao cargo de presidente do Banco Central. O novo presidente da entidade (o terceiro em quatro meses) passou a ser Guido Sandleris.

A comissão do FMI considerou que as políticas da Macri estavam corretas, e o empréstimo foi assinado. Sandleris mudou a estratégia do banco emissor: é estabelecida para o dólar uma faixa de flutuação variável (atualmente se compromete a comprar dólares se baixam a 34 pesos e a vendê-los se sobem até 44 pesos) e retirou pesos do mercado, com o objetivo de conter a inflação. É uma estratégia tipicamente deflacionária e recessiva. A poucos dias do fim do terrível 2018, o dólar parece estabilizado ligeiramente abaixo de 40 pesos. A inflação anual será conhecida em janeiro, mas estará bem acima dos 12% esperados há um ano: 47%, se não for mais. E a economia terá contraído em torno de 2%. A dívida pública, por sua vez, subiu para quase 80% do PIB.

O desemprego não aumentou significativamente. Alguns desequilíbrios externos (déficit comercial e déficit em conta corrente) foram corrigidos pela recessão. O poder de compra dos salários despencou. Agora, a grande ameaça é a incerteza: 2019 é um ano eleitoral e a reeleição de Mauricio Macri não parece tão provável como há alguns meses. Os investidores, nacionais e estrangeiros, nunca gostaram da incerteza.

Mais  Cultura da fartura impulsiona desperdício de alimentos no Brasil

Fonte: ElPaís

Notícias parecidas

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *