ter. fev 19th, 2019

Dourados ainda é um oásis de prosperidade pela pujança econômica

“Dourados, a despeito de seus muitos problemas econômicos, ainda, se caracteriza como um oásis de prosperidade, em função da pujança de sua agricultura, de sua pecuária, de sua agroindustrialização e de seu centro de negócios caracteriza, mesmo em meio a uma crise econômica nacional aguda e persistente, ainda atrai muita gente….Só que é preciso que sejam desenvolvidas condições de permanência dos contingentes populacionais que para cá migram. Corre-se o risco que tais migrações sejam voláteis e que parte dos que a busquem não permaneçam”. A análise é do professor universitário, Carlos Alberto Vitoratti, formado em Ciências Econômicas e pós-graduado em Gestão Econômica de Negócios.

Segundo Vittorati, apesar da prosperidade, Dourados não escapou da crise econômica que abateu o país. “Antes, Dourados crescia acima de 6% ao ano. Hoje, estamos falando de algo em torno de 2,8%. Acima do que acontece no país, mas muito aquém do que já foi registrado. Além do mais, Dourados está ficando isolada do restante do estado”. pondera o economista.

Confira a entrevista:

Como o senhor define a economia de Dourados, aos 83 anos?

Dourados é uma cidade que não nasceu para ser referência regional, mas que, com o passar do tempo, assumiu esta diferenciação e, hoje, exerce a condição de liderança regional, com muita competência. Economicamente, Dourados está se consolidando, cada dia mais, como cidade de economia completa, com um cinturão destacado de produção agrícola e pecuária, mas com atividades comerciais e de serviços de efetiva complexidade, servindo aos seus moradores e aos vizinhos, de mais de 40 municípios. Falta-lhe, porém, uma maior atuação producional industrial. Mas, isto não é privilégio de Dourados, já que todo o Centro-Oeste brasileiro é dotado de efetiva capacidade de produção primária, mas não consegue agregar conformidade industrial ao que produz e, por conta disto, vende commodities, que são produtos de baixíssimo valor econômico e financeiro, tanto no mercado nacional quanto internacional.
Acredito que Dourados, a partir da capacidade técnica e intelectual que possui, poderia ter dado efetividade a um centro de negócios, com planejamento de atuações, desenvolvimento de projetos econômicos e financeiros e atração de unidades de produção industrial. Ou seja, é preciso que se saia da osmose. É preciso que as forças vivas da comunidade, irmanadas, promovam uma economia propositiva, que busque condições contínuas de evolução econômica.

Continua sendo um celeiro de fartura?

Não. Dourados é, ainda, uma cidade próspera, porém, muito prejudicada pela crise econômica que se abateu sobre o país. Os dados oficiais mostram que a partir de 2016, o rítmo do crescimento econômico se ralentou bastante. Antes, Dourados crescia acima de 6% ao ano. Hoje, estamos falando de algo em torno de 2,8%. Acima do que acontece no país, mas muito aquém do que já foi registrado. Além do mais, Dourados está ficando isolada do restante do estado. O cidadão que precisa viajar de Ponta Porã a Campo Grande não passa mais por Dourados. O mesmo acontece com que mora em Fátima do Sul, Glória de Dourados, Vicentina. Daqui há pouco, o governo do estado pavimenta o trecho entre Caarapó e Fátima do Sul e aí Dourados perderá o contato com o restante do trecho sul que vai até Mundo Novo. É preocupante que se tenha uma cidade que vai ficando isolada e que tem baixa incidência industrial. A Dourados de 500 mil habitantes, que muitos previram, pode não acontecer.

Em relação a cidades como Três Lagoas e outras em franco desenvolvimento, como o senhor classifica a Cidade Modelo? Acredita que faz juz ao título?

Não. Não há mais porque se falar em “cidade modelo”, até mesmo porque o seu crescimento econômico decresceu muito, especialmente em 2017, e corre-se o risco de que 2018 também seja fraco. Além disto, a cidade perdeu muito de seu atrativo de beleza por conta dos muitos buracos nas ruas e do pouco cuidado com as praças e itens de embelezamento. É preciso que comece, o mais imediatamente possível, um programa de recuperação econômica da cidade e do município. E, neste sentido, é preciso que sejam usados os espaços de negócios que existem junto ao BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social e junto ao BRDE – Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul. É preciso que se tenha, como já frisamos, uma estrutura de organização de negócios e que tenhamos a capacidade política de exigir que Dourados conte com uma agência do BRDE. Não é pedido de favor; Mato Grosso do Sul é sócio do banco e, portanto, pode, na condição de sócio, exigir algumas coisas, entre elas, uma agência do banco para Dourados e região.

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“Apesar da prosperidade, o município não escapou da crise econômica que abateu o país”

— Economista, professor universitário Carlos Alberto Vitoratti

O que mudou, década a década, no processo econômico do município e quais os fatores?

Todo mundo sabe que Dourados surgiu como um entreposto de comércio e serviços do sul de Mato Grosso, na longínqua fronteira com o Paraguai, mas que a cidade da região deveria ser Rio Brilhante. E, tanto isto é verdade que, durante um bom tempo, o asfaltamento rodoviário do sul terminava em Rio Brilhante. Aí veio a BR 163 e, interligou Dourados. Depois, vieram as primeiras unidades industriais, as usinas de açúcar a álcool e, de forma lenta e gradual, Dourados foi consolidando sua vocação de polo regional de desenvolvimento econômico e social. Hoje, Dourados concentra comércio e serviços para o atendimento de mais de 40 municípios do sul do Estado de Mato Grosso do Sul. Mas, há a necessidade de que evoluções de processo sejam conformadas, sob pena de que a vocação econômica manifesta acabe por se esvair. Dourados precisa dar um novo passo no sentido do seu desenvolvimento e atrair gente, especialmente do espaço local e regional, para dentro de si; Dourados precisa voltar a ser atraente.

Dourados, desde a criação da Colônia Agrícola (Cand), pelo então presidente Getúlio Vargas, vem atraindo pessoas de toda parte. Essa migração para o Oeste continua compensando?

A situação econômica do Brasil é tão ruim que qualquer notícia de existência de empregos e possibilidade de renda, atrai gente dos quatro cantos do país. E, como Dourados, a despeito de seus muitos problemas econômicos, ainda, se caracteriza como um oásis de prosperidade, em função da pujança de sua agricultura, de sua pecuária, de sua agroindustrialização e de seu centro de negócios caracteriza, mesmo em meio a uma crise econômica nacional aguda e persistente, ainda atrai muita gente. Não é sem motivo que mais de 2.000 terrenos foram vendidos nos últimos quatro anos, propiciando a perspectiva de um assentamento populacional importante em seu meio urbano. Só que é preciso que sejam desenvolvidas condições de permanência dos contingentes populacionais que para cá migram. Corre-se o risco que tais migrações sejam voláteis e que parte dos que a busquem não permaneçam.

Com o aumento do cinturão de pobreza, visível na periferia, que medidas poderiam ajudar a alavancar o desenvolvimento dessas populações?

Dourados possui condições tão importantes de riquezas. A cidade não poderia estar convivendo com situações tão agudas de pobreza em seu meio urbano. É importante que se entenda que Dourados pode tratar melhor os seus moradores, em especial aos mais pobres. E, isto poderá ser feito a partir do desenvolvimento de um processo de economia compartilhada urbana, por meio do qual se utilize dos conhecimentos técnicos existentes nos três cursos universitários de agronomia, sendo que os mais de 100 formandos/ano que precisam fazer estágio. Estes estudantes poderiam ser agregados a estruturas de fomento de desenvolvimento econômico do estado e do município, permitindo a ocupação econômica dos mais de 3.000 terrenos não construídos que existem no espaço urbano de Dourados. Com isto, se pode abastecer as feiras de produtos orgânicos de Dourados, com hortaliças, feijão, arroz e outros produtos, havendo condições de alimentação de mais de 30.000 pessoas. Ou seja, uma cidade rica como Dourados, não pode achar normal contar com um cinturão de pobreza tão vasto e tão significativo. É possível reverter o quadro de miserabilidade que existe; basta que se tenha um mínimo de vontade e de criatividade.

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“Antes, Dourados crescia acima de 6% ao ano. Hoje, em torno de 2,8%”

— Economista, professor universitário Carlos Alberto Vitoratti

Antes eram as terras, hoje são as universidades que fazem aumentar a população. Mas, desemprego das famílias e falta de oportunidades no mercado de trabalho vêm, também, provocando o êxodo dos estudantes. O que o setor (ensino superior) pode fazer para suprir estas demandas reprimidas?

É importante que se entenda que o processo de movimentação de pessoas para formação universitária, que era tão comum há duas décadas, hoje não existe mais. Antes, os jovens eram obrigados a deixar suas famílias e migrarem para centros urbanos de maior densidade populacional e econômica, onde efetivavam a própria formação acadêmica. Hoje, as pessoas, a partir da expansão vertiginosa dos cursos à distância, vulgo EADs, podem cursar os mais diversos cursos universitários, mesmo morando em centros urbanos interioranos e de dimensões diminutas. É claro que existem cursos universitários, como os de medicina e de engenharia da computação, que ainda são desenvolvidos exclusivamente pelo módulo presencial. E, aí, as cidades que os possuem, como é o caso de Dourados, ainda se beneficiam da moradia de estudantes externos que ali buscam formação universitária, gerando movimentação de recursos financeiros e geração de um sem número de ocupações econômicas. O problema é que os custos muito elevados das faculdades particulares que oferecem a maioria das vagas existentes no país, nestas formações acadêmicas, estão empurrando os estudantes brasileiros para a Bolívia e para o Paraguai. E, por conta disto, Dourados está perdendo esta superveniência econômica que, por algum tempo, movimentou grande parcela de sua estrutura de comércio e serviços, em especial de bares, livrarias e espaços de habitação.

Neste contexto, como o senhor vê a educação a distância? O estudante que antes precisava gastar para viajar ou morar, alimentar-se e outras necessidades, poderia aliar estudo e trabalho permanecendo na cidade de origem?

É preciso que se tenha claro que a Educação à Distância, vulgo EAD, é uma realidade irreversível. Ela está permitindo que pessoas dos mais diversos locais do interior do país tenham acesso à maioria das modalidades de formação superior que existe no país. É claro que se pode discutir, ainda, a qualidade dos cursos superiores existentes. Mas, não há como prescindir da oferta dos cursos na modalidade à distância. É preciso reconhecer que eles existem e brigar para que eles possam agregar cada vez mais qualidade. E, com eles se passar de uma realidade de baixa incidência educacional, com 13,7% de acesso dos brasileiros à formação superior, para algo em torno dos 40%, como acontece na maioria dos países ditos “desenvolvidos”. A segunda faceta do espectro analisado é a questão do emprego. Permanecendo em cidades pequenas, as pessoas, em especial os mais jovens, sabem que podem ter acesso à educação superior, mas sabem – também – que, com raríssimas exceções, estarão condenadas ao desemprego e ao subemprego. E, aí não restam alternativas a não ser a velha conformidade da migração para os grandes centros urbanos. Ou seja, é preciso reconhecer que as coisas mudaram; mas não se alteraram tanto como às vezes somos levados à crer.

Os estudantes que saem em busca de formação, via de regra, não retornam às suas comunidades. Isso não é bom, porque não ajudam a alavancar a própria gente. Como economista e educador, como analisa este fenômeno?

É uma contingência natural da vida moderna. As pessoas que migram no interior os grandes centros adquirem hábitos e conformantes de qualidade de vida que as afastam das pequenas cidades. É muito difícil para quem se acostuma a frequentar bons cinemas, teatros, estádios de futebol e outros elementos de diversão próprios dos grandes centros, se acostumar às pescarias e à vida pacata dos pequenos centros urbanos. A vida interiorana é muito bonita e saudável, mas para quem conhece a correria e a impactação dos grandes centros, acaba sendo monótona. E, por isto, por mais que tenham dificuldades de acesso a boas perspectivas de emprego, os jovens emigrados preferem permanecer nos grandes centros urbanos. Aliás, o governo sabe como é difícil prover médicos e outros profissionais para atender às pequenas comunidades do interior, por mais que os salários pagos sejam convidativos.

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“Índice está acima do que acontece no país, mas muito aquém do que já foi registrado”

— Economista, professor universitário Carlos Alberto Vitoratti

Quanto à vocação econômica de Dourados, o que ainda não aconteceu? Quais os entraves e soluções?

É importante destacar que Dourados produz bem, mas industrializa pouco. Seria sumamente importante que o estado e o município estudassem condições de melhor aproveitamento das matérias-primas produzidas no espaço local e regional. Seria grandemente oportuno que se pudesse produzir mais quantidades de óleos vegetais, mais açúcar e, sobretudo, mais carnes industrializadas. Além disto, seria sumamente importante que se utilizasse parte da soja para produzir biodiesel e contingentes de gordura de soja, que é utilizada para produzir sabões e outros produtos da esfera de produtos de higiene e limpeza. E, por quê isto não pode ser feito no seu distrito industrial, visto que a região da Grande Dourados é produtora de mais de cinco milhões de toneladas/ano? Ou seja, falta a Dourados um projeto bem gestado e bem ordenado de desenvolvimento econômico e social. Não basta esperar que o crescimento populacional, por si só, crie as condições para o solucionamento dos problemas, até mesmo porque, ao invés de se resolverem, eles tendem a crescer e se agigantar. Imagine, só, caro (a) leitor (a), Dourados com 500.000 habitantes sem quaisquer grandes planejamentos para que atinja esta conformidade populacional. Que Deus nos livre deste flagelo.

Considerações finais:

Sou douradense por adoção. Eu também vim de fora, do interior do Paraná para Curitiba e, de Curitiba para Dourados. Só que hoje, eu me sinto douradense, de fato. E, por isto, me angustio com o fato de que a cidade possui uma grande capacidade e uma vocação econômica para o crescimento, mas não é capaz de utilizar as capacidades e as sobras de inteligência que nela residem. A cidade conta com quatro grandes unidades de ensino superior, além de escolas de formação técnica e tecnológica. São mais de 100 doutores e mais um sem número de pessoas altamente capazes de contribuir para que a cidade seja melhor planejada. Mas, não há sinergia de atuação entre a Prefeitura Municipal, o Sindicato Rural, o Sindicom, o CDL, a ACED e as escolas todas. O que um faz o outro, em geral, não fica sabendo e, quando fica, boicota porque não foi quem deu efetividade. E, vamos dar um exemplo claro disto. Dia 24 de outubro, último passado, recebemos em Dourados, pela primeira vez na história do estado de Mato Grosso do Sul, elemento da esfera de crédito do BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social para falar sobre linhas de crédito do banco para a região e, em especial, para as micros e pequenas empresas. Mas, o que a cidade fez? Ao invés de prestigiar em peso, foi organizada uma série de outros eventos, tudo porque a instituição que convidou foi a Anhanguera, que ainda é vista como “estrangeira”. Será que atitudes como esta contribuem para o crescimento econômico e social da cidade? Finalizando, fazemos votos de que outros tantos anos venham e que Dourados seja cada vez mais próspera e mais acolhedora.

Fonte: DouradosAgora

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