qui. fev 21st, 2019

Família que perdeu parente em Brumadinho teme ser vítima de uma próxima tragédia

Após sepultar no domingo o corpo de Jônatas Lima Nascimento, de 36 anos, uma das vítimas do rompimento da barragem em Brumadinho, seus familiares foram tomados pelo medo de serem eles também vítimas de uma tragédia parecida “ou muito pior”. Eles vivem em Congonhas, onde estão três barragens da propriedade da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), entre elas a Dique do Engenho e Casa da Pedra, que contêm rejeitos de minério de ferro e foram construídas diretamente acima do município. “A gente tem muito medo, o pessoal daqui sempre faz manifestação contra as barragens. Os bombeiros já explicaram sobre os riscos, vivemos em medo constante. Vai fazer um estrago grande se essas barragens romperem”, conta Denyha Crizólido, cunhada da vítima de Brumadinho.

Essas estruturas fazem parte de uma lista de 22 barragens sem garantia de estabilidade em Minas Gerais, de acordo com a Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável do Estado (Semad) e foram incluídas na lista de estruturas que terão fiscalização priorizada pelo Governo federal. A CSN afirma, no entanto, que as barragens são estáveis e que, desde meados do ano passado, realiza treinamentos sobre eventuais situações de emergência com a população. “Fizeram mesmo um treinamento de rotas de fuga há algum tempo, mas isso não adianta. Tem casas muito próximas das barragens, quem vai ter tempo de correr? Eles têm é que reforçar as medidas de segurança da mina”, reclama Crizólido.

Nesta terça-feira, o Governo federal publicou no Diário Oficial da União a criação de um grupo de trabalho que elaborará uma proposta de revisão da política nacional de segurança de barragens.

“Os pais do Jônatas, toda a família dele é de Congonhas, e todos estão bastante assustados. Hoje à noite [terça-feira], a população até convocou uma reunião para falar sobre os riscos e debater sobre como cobrar posturas da empresa”, acrescenta a cunhada da vítima de Brumadinho. Moradores de Congonhas começaram a divulgar nas redes sociais uma petição pública solicitando o embargo das barragens da CSN na região.

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Para a família de Jônatas, que trabalhava no setor de carregamento da Vale e havia sido transferido para Brumadinho há três anos, um rompimento em sua cidade significaria reviver o pesadelo que têm experimentado desde sexta-feira. A casa onde ele morava com a mulher e dois filhos (uma menina de 10 anos e um menino de seis anos) em Brumadinho só ficou de pé porque está localizada em um bairro alto, afastado da barragem que rompeu. O corpo de Jônatas foi encontrado no caminhão em que realizava os carregamentos no complexo da mineradora. O veículo foi atingido pela enxurrada de lama decorrente do rompimento da barragem. “Quando soubemos da notícia, ligamos para o SAC da Vale, mas não deram notícias. Passamos a sexta-feira ligando para todos os hospitais, passamos a noite em claro. A empresa divulgou os nomes de alguns desaparecidos pela imprensa, mas em nenhum momento falou com os familiares”, relata Crizálido. Ela conta que só puderam confirmar o falecimento de Jônatas na manhã de sábado porque uma prima médica passou os dados da vítima para o Instituto Médico Legal de Belo Horizonte, que informou que o corpo estava lá.

Na segunda-feira, o diretor financeiro da Vale, Luciano Siani, afirmou em uma coletiva de imprensa que “a família Vale está dilacerada” e anunciou o pagamento emergencial de 100.000 reais para cada família que perdeu um familiar com o rompimento da Mina do Feijão, independentemente do pagamento de indenizações que será feito mais adiante. A família de Jônatas Lima Nascimento diz que, até o momento, a empresa não comunicou essa medida diretamente aos afetados. “Falaram até que disponibilizariam psicólogos para os familiares de vítimas, mas a verdade é que minha irmã, viúva, teve que procurar ajuda por conta própria”, diz Crizólido.

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Fonte: ElPaís

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