Jornal alemão menciona apocalipse político brasileiro

O tradicional periódico alemão Die Zeit publicou, na segunda-feira passada (26), um ensaio intitulado “Apocalipse Brasil” que menciona “o espetacular colapso da democracia brasileira” e chama o presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), de “fascista impecável”.

Assinado pelo filósofo e pesquisador Oliver Precht, da Universidade Ludwig-Maximilians de Munique, o texto busca explicar a situação atual da política brasileira através de uma análise retrospectiva que segue do colapso do governo do Partido dos Trabalhadores (PT) aos tempos do Brasil escravocrata.

Segundo o autor, o “desastre” da atual política brasileira parece ainda mais chocante porque até algum tempo atrás o Brasil comportava-se como a maior democracia da América do Sul. Mesmo após séculos sob o julgo de um cruel sistema colonial, o país conseguiu desenvolver uma economia forte e sair do mapa mundial da miséria, a ponto do então presidente Lula ser chamado por Barack Obama de “político mais popular do mundo”.

Precht afirma que nem a retomada da democracia após a ditadura, nem a ascensão da esquerda foram capazes de mudar a estrutura econômica pós-colonial e pós-escravocrata que é típica no Brasil: uma elite que despreza os pobres e uma classe média branca que se sentiu acuada com a ascensão de uma nova classe média, formada por pardos e negros, que antes não passavam de trabalhadores domésticos semiescravos.

O PT, na visão do autor, teria ajudado a extinguir a miséria do país, mas em contrapartida, envolveu-se no maior escândalo de corrupção de sua história, falhando assim em seu projeto de mudar as estruturas sociais do Brasil. Os protestos de 2013 contra tarifas excessivas no transporte público e uma administração sobrecarregada e corrupta marcariam o início do fim do partido de Lula e terminariam com o impeachment da sua sucessora, a presidente Dilma Rousseff.

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Referindo-se à cena da votação do impeachment como exótica e estranha, o autor volta-se à participação do presidente recém-eleito: “Este espetáculo atinge seu triste clímax quando Jair Bolsonaro dedica seu voto a um certo Carlos Alberto Brilhante Ustra, coronel da ditadura militar, que supervisionava os porões de tortura de 1970 e 1974, no quais Dilma Rousseff foi também torturada”.

Logo após, Precht chama atenção para a campanha presidencial de Bolsonaro, realizada a partir de smartphones, e que teria evidenciado o caos da atual política brasileira. Entre promessas de limpeza da corrupção e eleitores comparecendo armados às urnas de votação, fez-se de Lula e Dilma Rousseff os bodes expiatórios para uma corrupção que está profundamente enraizada na história do país. De acordo com o autor, ainda, as estratégias de desinformação usadas nos Estados Unidos para a eleição de Trump foram copiadas e empregadas de forma ainda mais radical durante a última campanha do presidente eleito do Brasil.

O ensaio afirma que junto a forças evangélicas e algumas lideranças do exército, Bolsonaro soube se utilizar bem dessas campanhas de desinformação fazendo com que uma população dividida tivesse a sensação de estar à beira de um abismo. Desta forma, ele teria apelado a anseios nostálgicos por um Brasil antiquado, em que a ordem social parecia inabalável e quando questões referentes ao racismo e ao machismo não eram levadas à sério.

O autor conclui que é difícil para os europeus de hoje entenderem o ódio que exala das elites e da classe média em relação às populações negra, indígena e LGBT no Brasil. Ao tentar explicar esse sentimento por meio de referência ao “Casa Grande & Senzala”, texto famoso do intelectual brasileiro Gilberto Freyre, ele questiona se os países sul-americanos serão um dia verdadeiramente capazes de se tornar democracias estáveis. Ao que tudo indica, segundo Precht, parece que não.

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Fonte: Yahoo

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