Juíza tentou reduzir falas de Lula: “Eu só queria que o senhor respondesse sim ou não”

No esforço de não envergar como substituta de Sergio Moro – que alimentou na mídia a imagem de juiz sisudo e rigoroso – a juíza Gabriela Hardt decidiu partir para o ataque. Confrontou as falas de Lula, impediu o petista de tecer comentários indignados a respeito de sua situação jurídica e tentou reduzir até mesmo as respostas que o ex-presidente ofereceu sobre o sítio de Atibaia e a relação dos antigos governos com os empresários que viraram réus na ação penal. É o que mostra o vídeo da audiência que ocorreu na quarta (14).

Um dos advogados do ex-presidente chegou a registrar uma reclamação logo nos momentos iniciais da oitiva, porque a postura da juíza configurou, em sua opinião, uma afronta à ampla defesa consolidada na Constituição e em dispositivos do Código Penal. “Eu só quero que ele tenha a liberdade de, nas formas da Constituição e da lei, responder [as perguntas] da forma que ele achar adequada”, disse. “Ele responde respondendo, não fazendo perguntas ao Juízo ou Acusação”, disparou Gabriela.

Lula disse que não se sentia “confortável” naquela situação.
– “Quando é que eu posso falar, doutora?”, perguntou ele.
– “O senhor pode falar quando eu perguntar”, respondeu a juíza.
– “Pelo que eu sei, é meu tempo de falar.”
– “Não, é tempo de responder as minhas perguntas. Eu não vou responder a interrogatórios nem questionamentos aqui. Está claro? Está claro que eu não vou ser interrogada?”
O atrito entre Lula e a substituta de Moro começou logo nos primeiros minutos da audiência.
– “Eu quero perguntar para o meu esclarecimento: eu sou dono do sítio ou não?”, disse Lula.
– “Isso quem tem que responder é o senhor e não eu. Eu não estou sendo interrogada neste momento”, rebateu Hardt.
– “Não, quem tem que responder é quem me acusou”, disparou o ex-presidente.
Foi o passe para a magistrada se impôr.
– “Senhor ex-presidente, é um interrogatório e se o senhor começar nesse tom comigo, a gente vai ter problema. Vamos começar de novo. Eu sou a juíza do caso. Eu vou fazer as perguntas que eu preciso para que o caso seja esclarecido, para que eu possa sentenciá-lo, ou algum colega possa sentenciá-lo. Num primeiro momento, o senhor tem todo o direito de ficar em silêncio, mas neste momento, eu conduzo o ato.”
Moro teve duas audiências com Lula e em nenhuma delas precisou dizer ou insinou que Lula só pode abrir a boca quando autorizado.

Aos 16 minutos de audiência, a impaciência da juíza com as respostas contextualizada de Lula se fez evidente.

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Neste momento, ela perguntou a Lula se ele confirma encontros com Emílio Odebrecht para falar do “medo que ele [empresário] tinha da petroquímica Braskem ser estatizada.”

– “Sim, o senhor conversou com Emílio algumas vezes ou não, não conversou? (…) O senhor não conversou nem garantiu nada a Emílio em algum momento?”
– “Eu poderia garantir [a Emílio Odebrecht] qual era a intenção do governo, e a intenção do governo era ter uma indústria química poderosa. O Brasil é um País de 200 milhões de habitantes e até bacia de lavar os pés importa porque não tem indústria química forte. Eu era favorável e queria uma indústria petroquímica muito forte, e a Braskem…”
– “Eu só queria que o senhor respondesse sim ou não”, interrompeu a juíza.
– “Lamentavelmente as coisas não assim, sim ou não'”, explicou Lula.
No depoimento, Lula disse que Marisa Letícia, ao contrário do que afirmam delatores e réus, não tinha intimidade com empresários da OAS ou Odebrecht para pedir que eles fizessem as reformas.
“Agora está muito fácil citar o nome da dona Marisa porque ela morreu. (…) Marisa não tinha, no meu conhecimento, nenhuma relação com a Odebrecht. Obviamente que ela pode ter encontrado em eventos públicos com empresários. Mas ter liberdade de falar com uma pesoa e pedir, acho que sinceramente quem está citando isso está encontrando uma solução cômoda em cima de uma pessoa que está morta.”
Lula também reafirmou o que disse a Moro em outras audiências, que é “vítima de uma farsa” criada pelos procuradores de Curitiba em duas ações penais, e o caso do sítio de Atibaia é uma terceira mentira. “E estou pagando este preço e vou pagar porque sou um homem que crê em Deus, creio na Justiça, e um dia a verdade vai prevalecer.”
Lula também explicou que o Conselho de Administração da Petrobras e as “forças políticas” que ajudaram em sua eleição tiveram papel na escolha de direitos e do presidente da estatal. Ele ainda disse que essa relação não mudou com a eleição de Jair Bolsonaro, apesar de o presidente eleito vender imagem oposta a isso.
“Não sei se estão acompanhando a montagem do governo agora, atual. Quem é que está sendo colocado [nos ministérios e cargos estratégicos]. Dá-se a impressão de que não tem nenhum político, mas com raríssimas exceções, todo mundo ali é político.”

Quando Hardt perguntou sobre a “conta de propina” que a OAS afirmou ter junto ao PT, Lula respondeu: “Essa é a sanha que foi criada no powerpoint [dos procuradores de Curitiba, que acusaram Lula de instaurar a “propinocracia” no País para perpetuar o partido no poder]. Qualquer coisa foi do ‘caixa geral’. Se construiu uma mentira, não sei se do empresário ou de quem quer que seja, que passa a jogar nas costas do PT a responsabilidade por tudo que aconteceu nesse país.”

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Nesta ação penal, Lula é acusado de ter sido beneficiado por reformas que a Odebrecht e OAS fizeram no sítio de Atibaia, que pertence aos amigos da família, Fernando Bittar e Jonas Suassuna. Em troca das reformas, a Lava Jato diz que as empresas tiveram contratos com a Petrobras.

A audiência foi divulgada pelo Estadão em 6 vídeos:

Fonte: JornalGNN

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