ter. fev 19th, 2019

O risco ideológico no Itamaraty

Ao indicar o diplomata Ernesto Araújo ao cargo de chanceler, o presidente eleito, Jair Bolsonaro, repetiu as declarações de que, em seu governo, pretende praticar uma política externa afastada da ideologia.

Todos os movimentos do novo governo na área até agora, contudo, tiveram motivação ideológica: a decisão de mudar a embaixada brasileira em Israel para Jerusalém, a intenção de sair do acordo climático de Paris (seguida de recuo), os ataques ao Mercosul, as críticas ao poderio chinês e a reverência incondicional a Donald Trump.

A própria nomeação para o Itamaraty atende aos anseios, entre apoiadores de Bolsonaro (sobretudo entre seus filhos), de desmontar o “esquerdismo” que julgam incrustado no Itamaraty. Em seus escritos, Araújo se revela admirador de Trump e devoto da mesma cartilha ideológica que encanta milhares de bolsonaristas.

Seu mote, no mundo todo, é o combate ao pretenso “globalismo” das instituições internacionais e o resgate de um nacionalismo de fundo religioso, ou mesmo étnico, que marcou o planeta até a Segunda Guerra. É essa cartilha que anima o populismo dos governos húngaro, polonês ou italiano, além de políticas contra imigrantes mundo afora.

Ela atribui os males planetários a espantalhos como a ONU, o Islã, o bilionário George Soros (biombo para o antissemitismo atávico do Leste Europeu), o multiculturalismo ou o “marxismo cultural” (seja lá o que isso signifique…). Desdenhada em qualquer ambiente acadêmico sério, adotou as redes sociais como meio de disseminação, apoiada por ideólogos obscuros, artistas, esportistas ou outras figuras de algum destaque na sociedade. No Brasil, resultou em Bolsonaro.

Como toda ideologia, os problemas surgem quando ela esbarra na realidade. Basta acompanhar a novela do Brexit no Reino Unido para entender que, na prática, a fantasia de resgate da soberania não passava de delírio. O mesmo vale para as tentativas de Trump para sair da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Ou para Hungria e Polônia, cujos líderes atacam a União Europeia (UE), mas sabem depender dela para o crescimento econômico.

Não que a cartilha ideológica seja inofensiva. O acordo de Paris, passo tímido, ainda assim essencial para o planeta combater as mudanças climáticas, sofreu um baque com a saída americana. A Otan resiste, mas a guerra comercial deflagrada por Trump contra a China deixou a Organização Mundial do Comércio (OMC) em situação crítica.

Se prosperar, essa nova agenda nacionalista – ou “soberanista”, como preferem alguns – enfraquecerá, ou tornará irrelevantes, as instituições planetárias erguidas desde a Segunda Guerra para manter a paz mundial. Durante mais de sete décadas, apesar de todos os conflitos e desafios, o mundo se manteve em situação de equilíbrio relativo, integração comercial, crescimento econômico e redução da miséria. A ressurreição do nacionalismo depois da crise financeira de 2008 trouxe turbulência a esse caminho.

No Brasil, ela acaba por adquirir um tempero local. Somos um país essencialmente multicultural, onde a absorção de imigrantes jamais trouxe problemas comparáveis aos europeus; onde o preconceito ou o racismo, embora presentes na sociedade, nunca tiveram expressão eleitoral ou em campanhas políticas.

Também somos uma das economias mais fechadas do mundo, sem muito protagonismo na cena global, um time razoável, mas sempre na série B. Nossa política externa nunca dá certo quando tenta negar essa realidade, em nome de qualquer ideologia que prometa grandeza.

O melhor exemplo são os desastres internacionais dos governos petistas. Na tentativa de contrapôr-se ao “poderio americano” e de construir uma esfera de influência no Hemisfério Sul, o Itamaraty fez vista grossa ao chavismo na Venezuela, despejou bilhões de dólares do BNDES em países de segunda linha, financiou autocratas e todo tipo de líder que manifestasse algum tipo de simpatia pelo socialismo ou pela cartilha bolivariana ou esquerdista.

O ápice desse delírio de protagonismo no cenário global foi a ridícula (e malograda) tentativa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – hoje preso por corrupção em Curitiba – para negociar um acordo de transferência de urânio iraniano, ao lado do turco Recep Tayyip Erdogan. Lula falava na época até em se oferecer como mediador para o conflito entre israelenses e palestinos no Oriente Médio.

Bolsonaro tem razão ao afirmar que o Brasil não pode mais contaminar a política externa com ideologia. O que fará, contudo, é mais importante. “Espera-se que a ação do Itamaraty não repita as estripulias do PT com o sinal trocado”, escreveu em artigo recente o embaixador Rubens Barbosa. “Em vez de ênfase nos países bolivarianos e de esquerda, aproximação, sem qualificações, com países conservadores, afins ideologicamente ao novo governo.”

Araújo chegou jovem ao posto de chanceler, sem jamais ter recebido credenciais como embaixador fora do Brasil (sua promoção ao cargo de ministro de primeira classe é recente). Mas é um diplomata experiente, com competência comprovada como negociador. Terá desafios enormes, muito além de temas imediatos, como a crise na Venezuela, o acordo para os Estados Unidos usarem a base de Alcântara ou as acusações na OMC contra nossos incentivos à indústria automotiva.

Qual será nossa relação com a China e nossa política para Ásia, região que mais cresce no planeta? Qual será o futuro do acordo comercial do Mercosul com a UE ou com o Canadá? Qual será, por sinal, o futuro do próprio Mercosul? Haverá abertura unilateral a importações (como defendem os liberais), sem contrapartida no acesso de nossos produtos agrícolas a mercados estrangeiros? Que tipo de medida concreta a proximidade com o governo Trump poderá trazer a exportadores?

Todas essas questões precisam ser enfrentadas dentro das instituições “globalistas” que estão aí. A resposta a nenhuma delas trará ao Brasil o tipo de “grandeza” almejada por Araújo ou Bolsonaro. Mas são essenciais se eles quiserem mesmo praticar uma política externa pragmática, baseada em nossos interesses – e não apenas em ideologia. Do contrário, o risco é, no lugar de atingir a tal “grandeza”, o Brasil cair da segundona para a série C.

Fonte: G1

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Samuel Azevedo
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